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sábado, 1 de dezembro de 2012

Entrevista: Ruy Cabeção

Foto: Lairto Martins
Ruy Bueno Neto começou a carreira no América/MG. Ganhou fama nacionalmente após se destacar com a camisa 2 do Botafogo, onde se tornou ídolo. Após passagens por grandes clubes brasileiros, acaba de disputar a Série C pelo Brasiliense-DF. Aos 34 anos, o experiente jogador revela bastidores da relação entre jogador e empresário e o desejo de ser treinador futuramente. Abaixo, você confere a entrevista exclusiva que o Cabeção deu para O Agonizante.

O Agonizante: Hoje, você tem contrato com alguém? Surgiu alguma proposta ou sondagem?

Ruy Cabeção: Estou sem clube. Sondagem tem, mas proposta concreta ainda não.

OA: Está esperando o ano terminar para decidir?

RC: Não. Estou esperando uma coisa bacana. A gente tem que analisar tudo, o time, o campeonato que vai ser disputado. Não estou trabalhando mais com escritório, não tenho nada assinado com nenhum empresário mais. Então, é direto comigo mesmo.

OA: Você passou por grandes clubes como Cruzeiro, Botafogo, Fluminense e Grêmio. Mas foi no Botafogo que você conseguiu destaque nacional. Foi a sua melhor passagem?

RC: Foi, porque a identificação com a torcida era e é muito grande. Mas, tiveram outros clubes em que eu tive momentos bons também. No próprio Cruzeiro, eu tive muitos, mas por ser mineiro, ser prata da casa do estado, o reconhecimento às vezes não é o mesmo. O Grêmio também, fiquei pouco tempo, mas fui eleito melhor lateral do campeonato gaúcho. Não tem um time específico. O carinho maior que eu carrego até hoje é da torcida do Botafogo.

OA: Você é lembrado pelo jogo da final do Carioca de 2006, no qual mesmo machucado, permanceu em campo. Foi o momento ou o jogo mais marcante da sua carreira?

RC: Tive muitos. Eu sou um jogador que tenho um reconhecimento maior do torcedor. Em Minas Gerais, algumas pessoas vinculadas à imprensa - eram minoria, mas de meios importantes - infelizmente tinham problemas pessoais comigo.  outros não reconheciam, prefiriam falar mal. No Cruzeiro, eu fiquei marcado por ter participado da jogada do gol de despedida do Sorín. No título mineiro do América/MG, eu que fiz a jogada toda sozinho para o gol do Alessandro. No Botafogo teve esse jogo. No Figueirense, quase fomos campeões da Copa do Brasil. E no Grêmio, a gente chegou a uma semi-final de Libertadores e foi a minha primeira. Cada time tem um momento.

OA: A sua passagem pelo Fluminense interferiu na relação com a torcida alvinegra?

RC: Não, de forma alguma.

OA: Foi bem recebido nas Laranjeiras?

RC: Sim. Tenho o respeito do torcedor por ter feito parte do grupo de 2009, que se livrou do rebaixamento.

OA: No início você era só Ruy, depois adotou o Cabeção. Alguma vez o apelido incomodou?

RC: Não. Esse apelido começou com a torcida do Cruzeiro, mas foi se firmar mesmo no Botafogo. Eu carrego desde criança, o pessoal da minha rua, do meu bairro, sempre me chamaram de Cabeção. Então, nunca incomodou não.

OA: Você falou do Grêmio, onde começou muito bem, marcando dois gols nos dois primeiros jogos. Depois saiu no meio do ano. Porquê?

RC: Eu saí exclusivamente por culpa do treinador. Eu tive um desentendimento com ele na semi-final da Libertadores. Eu iria ficar treinando em separado, mas o Celso Barros (presidente da patrocinadora do Fluminense) me ligou pedindo para ajudar o time e me ofereceu dois anos de contrato. Foi por isso que eu saí, se não, teria continuado lá. A diretoria, os jogadores e a torcida gostavam de mim.

OA: Se arrepende de ter saído do Grêmio naquela época?

RC: Não é questão de se arrepender ou não. Eu gostava muito de jogar pelo Grêmio. Na minha estreia eu fiz um gol, fui muito bem no Estadual, era titular absoluto, tinha muita coisa boa que poderia acontecer. Infelizmente, apareceu mais um treinador para atrapalhar minha carreira, mas é vida que segue e serve de aprendizado.

OA: Você ficou conhecido por jogar na lateral. Depois, passou a atuar como meia. Como foi essa transição?

RC: Nos últimos quatro ou cinco anos, eu venho jogando mais como segundo volante ou meia direita. Mas, querendo ou não, sempre um treinador me pede para atuar na lateral. Isso vai mais por questão do elenco. Para mim, jogar no meio de campo, não foi nenhuma novidade. A minha categoria de base foi toda feita como meia direita. Quem me colocou como lateral direito foi o Vanderlei Luxemburgo, na época em que estava em falta no Brasil. Ele achava que eu poderia ser feliz ali. E realmente fui.

OA: Você falou que passou a jogar de lateral por causa de uma opção do Luxemburgo. A posição de lateral ainda é carente?

RC: Hoje, não. Logo após a época do Cafu, não tínhamos laterais-direito no Brasil. Agora, a gente tem o Daniel Alves, o Maicon, que apesar da idade é um dos melhores na posição, e alguns meninos bons que estão aparecendo.

OA: Quais as principais diferenças entre atuar na lateral e no meio?

RC: Infelizmente, o lateral é muito dependente do meio de campo. Se ele não tiver volantes e meias que balancem o jogo, de um lado para o outro, vai morrer de fome. Já, o meia não, é o coração do time, do futebol mundial. A bola está sempre passando por ali. Você tem condição de participar mais da partida com a bola no pé.

OA: Acha que ainda tem vaga para você em algum clube da primeira divisão?

RC: Sinceramente, para jogar em um clube de ponta está complicado. O futebol está monopolizado. Existem alguns empresários no futebol brasileiro que para o jogador entrar em um time grande, tem que passar por eles. E o exemplo serve para mim. Quando deixei de trabalhar com meu empresário, que tinha se vinculado a um outro, grande no meio do futebol, a dificuldade de arranjar espaço na Série A ficou maior. Ele passou a não querer trabalhar comigo por conta da minha idade e por não trazer nenhum retorno a eles. Voce vê jogadores tecnicamente de niveis inferiores, mas que podem dar um retorno para os times e empresários, que tem vaga garantida (nos clubes) e ficam pulando de um para o outro, até atingir 30 anos. Jogador acima dessa idade não vale nada.

OA: Por já ter 34, você já pensa em parar? Alguma ideia do que pretende fazer quando se aposentar?

RC: Por enquanto, não. No próprio Brasiliense, os preparadores físicos e os treinadores que passaram por lá, me disseram que posso jogar tranquilamente até aos 40. Mas, pelas minhas contas, pretendo atuar por mais 3 anos para poder treinar todos os dias e acompanhar o ritmo de todo mundo. Quando me aposentar, eu tenho muita vontade de ser técnico um dia.

OA: Pretende encerrar a carreira em algum clube específico? No Botafogo, América/MG, Grêmio...

RC: Isso eu não penso. No Botafogo, é lógico que eu tive meu momento de ídolo, mas eu não posso nunca me comparar a um Túlio Maravilha, a um Sérgio Manoel, Wágner, Gottardo, Gonçalves. O clube estava a quase dez anos sem ganhar o Carioca e eu joguei machucado, o certo seria não jogar, tanto que fiquei 52 dias parado depois. Isso marcou muito a torcida. Mas eu tenho humildade e sei da grandeza que eles têm e não posso me comparar. Quero parar em um time bacana, sem jogo de despedida.

OA: Você nunca foi ligado à polêmicas, que rondam o mundo dos jogadores de futebol. Como é a sua vida fora dos campos?

RC: Uma coisa que existe é a hipocrisia. Tem muito jogador que se diz evangélico, mas não sai da noite e enche a cara. Eu fico no meio termo. Apesar de ser casado e ter duas filhas, nunca deixei de sair e tomar a minha cerveja na hora certa. Aqui no Brasil, a coisa mais estranha do mundo é jogador beber e fumar. Você vai na Europa e os jogadores bebem e fumam muito mais do que os daqui. Lá, existe o profissionalismo, eles não se preocupam com a vida pessoal do jogador, só querem que ele renda dentro de campo. Eu faço tudo que uma pessoa ''normal'' faz, lógico que tenho as minhas restrições. Sou muito feliz porque sempre soube aproveitar a minha vida da melhor maneira possível.

OA: Você afirmou em uma entrevista que os técnicos Celso Roth, Mario Sérgio e Levir Culpi foram importantes por serem diretos e sem frescuras. Tem muita frescura no futebol?

RC: Futebol hoje virou um mega evento. Os clubes aprenderam a usar o marketing. Os jogadores importantes conseguem ficar aqui muito tempo. Então, está envolvendo muita coisa. Existem empresários no meio que tem jogadores, são donos de clubes, muita influência e são só os caras (agenciados) deles que entram nos times. Os empresários não estão preocupados com os clubes. Só querem mostrar o produto deles. Nesse sentido, o futebol está chato.

OA: O Grêmio prepara o seu adeus ao estádio Olímpico. Um assunto, relacionado a isso, que vem sendo muito debatido, na internet especialmente, é o fim da ''avalanche''. O que você pensa a respeito?

RC: Isso é complicado dizer. É uma característica muito forte e tradicional da Geral. A gente fica triste, mas o futebol tem que ter um crescimento. Reclamamos há muitos anos que o Brasil tem que ter estádios modernos e agora estamos seguindo essa linha. Se tivesse alguma outra forma, um consenso, criar um cantinho só para essa organizada, não sei, é difícil. A repercussão vai ser muito grande por ser uma marca registrada gremista.

OA: Falando sobre o seu último clube, o Brasiliense chegou a ter uma boa fase na Série C, mas depois acabou não conseguindo a vaga para as quartas de final. O que houve?

RC: O ano do time foi muito ruim. Cheguei lá para disputar o segundo turno. Era capitão da equipe e fiz um ótimo campeonato, mesmo ninguém esperando. Sou muito grato ao Luiz Estevão, que sempre gostou do meu futebol e pediu para que eu voltasse. Mas existe uma pessoa lá dentro que não vai com a minha cara. O Brasiliense só colheu o que ele plantou. Infelizmente, investiu em jogadores que não eram da grandeza do clube e só no returno contratou jogadores de qualidade. Eu fui um deles, que cheguei para tentar salvar, consertar a besteira que fizeram. Mas sozinho a gente não consegue fazer nada. Mesmo assim quase conseguimos a vaga depois de uma temporada horrível, devido à filosofia de trabalho que implantaram no início do ano.

OA: Algum companheiro para destacar?

RC: São muitos nomes, muita gente mesmo, mas eu posso citar o Sorín e o Alex, nos tempos de Cruzeiro. O Pintado no América/MG. No Botafogo, o Scheidt e o Dodô. No Grêmio, o Alex Mineiro, que é meu amigo até hoje. Eu só tive problema mesmo com dois técnicos. Eles serviram como aprendizado, me ensinaram o que não fazer como treinador. E como eu tenho vontade de ser, foi uma experiência.

Entrevista realizada quarta feira, dia 28/12/2012, por telefone.

sábado, 3 de novembro de 2012

No lugar errado


  Me recuso a crer que um treinador que consegue desempenhar boas campanhas por anos consecutivos seja ruim. Por isso me reservo no direito de pensar que Celso Roth é bom. E melhor ainda seria se não houvesse nascido no Brasil. Imagine só.

  Roth surgiu como a maioria dos técnicos surgem: depois de se destacar por um time pequeno - em seu caso, pelo Caxias-RS - ganhou oportunidade em um grande clube. Foi no Internacional que ele apareceu para o Brasil todo. E depois de então foi seguindo por vários clubes grandes do país, como Vitória, Palmeiras, Grêmio, Flamengo, Vasco, Botafogo, Goiás, Atlético-MG e Cruzeiro e Sport. Não necessariamente nessa ordem...

  Completando a pequena biografia, Celso Roth assinou como técnico os títulos de campeão gaúcho de 1997, pelo Inter, e 1999, pelo Grêmio. Copa Daltro Menezes, pelo Caxias, em 1996; Copa do Nordeste, em 2000, pelo Sport. Em 2010, herdou o Inter na semi-final da Libertadores e levou a Taça. No Mundial, tinha um Mazembe no meio do caminho...


  Por onde passa, Roth normalmente deixa o time mais organizado do que quando encontrou. Mesmo que a solução para tal desorganização seja se defender primeiro, para não perder, e depois atacar. A retranca. Pois é. Por isso mesmo, Roth deixou também o histórico - não apenas o rótulo - de retranqueiro por onde passou. E junto dessas marcas vieram as de antipático, mal-educado e extremamente disciplinador.

  E assim Roth vai perambulando de estado em estado. Ganhando em três dígitos, organizando equipes... e sem a paciência dos torcedores. Torcedores que só viram desempenho de Roth menor que 50% no Flamengo e no Botafogo.

  O que costuma acontecer é que Celso Roth assume um time bagunçado, arma a retranca, o time melhora, e em alguns casos sonha alto - casos do Vasco em 2007, do Grêmio em 2008, e, principalmente, do Atlético-MG em 2009, quando o Galo passou de aspirante ao título a fora do G-4 depois de cinco derrotas na reta final do campeonato.

  Perder a mão


  Essa fama que acompanha o treinador tem argumentos. E é nela que baseio minha tese. E SE Roth fosse europeu? Voltando à quantidade de títulos, há técnicos de Série A que não tem as conquistas nem em número, nem em tamanho. Impaciência do Roth à parte, é preciso respeitá-lo.

  Se Roth estivesse na Europa, as turbulências seriam mais respeitadas, aguardadas, e o outrora bigodudo treinador teria mais chances de desenvolver um trabalho longo. Não sofreria os desrespeitos que cansa de sofrer por parte, principalmente dos dirigentes, que especulam sua saída com meses de contrato ainda a serem cumpridos e sondam outros treinadores. Depois de pegar um Cruzeiro desfigurado e colocar em uma posição respeitável, já se falou até em San Paoli, da Universidad de Chile e em Marcelo Oliveira, do Vasco.

  Calma consigo, Roth. E calma com os outros...

domingo, 9 de setembro de 2012

As provas da revolução

O capitão da argentina tomou decisão emblemática.
(Foto: www.mundodofutebol.net)
  Javier Mascherano é um dos melhores volantes do mundo. Tem esse status há, no mínimo, seis anos. Típico volante mordedor, titular absoluto da seleção argentina e do Barcelona... onde é zagueiro. Como zagueiro se firmou e aqui você confere que como zagueiro ele quer dar sequência à sua carreira. 

  Não, Mascherano não é um trintão que precisa recuar porque o físico não permite mais. Masc tem 28 anos. Muito menos têm altura de zagueiro: sua estatura é 1,78m. A decisão do argentino tem - certamente - a ver com a presença de Sergio Busquets no Barça. O esguio não-mordedor da equipe tem a função de honrar a origem do nome da posição em que joga e direcionar o time. Orientar por onde a jogada deve começar. Sylvinho, certa vez, disse que Guardiola o obrigava, nos treinamentos, a dar, no máximo "um toque e meio na bola". É meio por aí. E virada rápida de jogo está longe de ser característica de Mascherano.
Depois de passagens por Vasco e Porto, Souza ajuda o Grêmio
na bela campanha do tricolor neste Brasileirão.  (Foto: i0.ig.com)
  Outro grande nome da proteção à área é Yaya Touré, do Manchester City. Primeiro volante de origem, a qualidade para a saída de bola é invejável. Por aqui, o Grêmio cresceu muito de rendimento neste Brasileirão quando Elano e Zé Roberto chegaram. Meias. Em um meio-campo onde os volantes são os jovens e excelentes Fernando e Souza - que já foi titular do Porto. O time não dá chutão, ataca em bloco e tem sempre quatro jogadores para servirem os atacantes.

Mas nem tudo são flores.

  Essa nomenclatura me incomoda: "segundo-volante", como costumamos classificar determinados atletas. Vejamos um de muito sucesso: Ramires. Grande característica: capacidade aeróbica. Convenhamos, apesar da boa técnica, o ex-atleta do Cruzeiro aparece mais ofensivamente do que marcando alguém. Diguinho, do Fluminense, é outro que foi por este caminho. Raçudo, marqueteiro, bom passe, drible... e, antes de fazer sucesso, foi contratado como meia pelo Botafogo. E assim vão alguns casos. "Segundo-volante" é uma pseudo-posição. Não são poucos os que ocupam a frente da zaga sem proteger, disfarçando a ausência de poder de marcação com as qualidades de um "terceiro homem de armação de jogadas". Faça-me o favor...

O limitado Cocito fez muito sucesso.
(Foto: www.marcelodieguez.com.br)
Então...

  Então nós estamos vivendo a prova de que o jogo se ganha - quase sempre - no meio-campo: quanto mais polivalentes os jogadores que por ali jogam, maiores as chances de um bom desempenho. Provavelmente, o melhor volante que eu vi jogar é o Claude Makelele, que defendia a seleção da França. E junto dele, outros fizeram história, como Genaro Gattuso. Por aqui, o tempo de Amaral, Cocito, Mauro Silva e Jonílson está ficando para trás. Brucutus estão em processo de extinção, apesar de resistirem por aí. O contra-ponto é que o Internacional, pelo limite de estrangeiros, não coloca o grande Bolatti nem no banco, para Guiñazu poder jogar. E, assim, muitas vitórias vêm. Não há melhor ou pior. Há adaptação. Resistência aos novos tempos. Qualidade para impor o que desejas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Vitória tricolor. Mas, atenção.

Antes de tudo, o Fluminense deve sim vencer. É o melhor elenco do país, melhorado ainda mais, após o título do Campeonato Brasileiro do ano passado, contra o modesto time de Saquarema.

A ressalva vai para os méritos da classificação do Boavista. Pareceu ser o mais sólido entre os times peuqnenos deste primeiro turno do Campeonato Carioca, ganhando, inclusive parecendo ser time grande, o gigante da colina, Vasco da Gama, por 3 x 1.

Terá desfalques importantíssimos que reduzem suas já poucas hipóteses e vitória: Joílson, meia-direita de muita velocidade, com passagens por Botafogo, São Paulo e Grêmio e Roberto Lopes, ex-Vasco, que dá segurança a defesa do time da Região dos Lagos. Mas conta com o atacantes Tony, que joga de meia, a velocidade de André Luís e o faro de gol do argentino Frontini, artilheiro do campeonato. O bom técnico Alfredo Sampaio saberá como armar o time para ganhar, se possível.

Mesmo com todos os méritos, e mesmo se estivesse com o time completo, o Boavista não deverá alcançar a final da Taça Guanabara. O Fluminense é incomparavelmente melhor que qualquer pequeno. E só perderá o jogo se estiver numa tarde muito infeliz.


O tricolor das laranjeiras contará com Fred, que apesar de uma gastroenterite, está confirmado ao lado do He-Man, Rafael Moura., em ótima fase. Marquinho ganhou posição de Souza(Deco ainda não tem previsão de volta) e Leandro Euzébio, que não se recuperou completamente de torção no tornozelo esquerdo deverá ser substituído por Digão. Um risco calculado pelo técnico Muricy Ramalho, ciente que o matador Frontini tentará tudo por este lado.

Um bom jogo se adivinha.

FICHA TÉCNICA 
Local: Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, no Rio de Janeiro (RJ)
Data: 19 de fevereiro de 2011 (Sábado)
Horário: 17 horas (de Brasília)
Árbitro: Wagner Magalhães (RJ)
Assistentes: Rodrigo Joia (RJ) e Rodrigo Correa (RJ)

FLUMINENSE: Ricardo Berna; Mariano, Gum, Digão e Carlinhos; Edinho, Diguinho, Marquinho e Darío Conca; Fred e Rafael Moura
Técnico: Muricy Ramalho

BOAVISTA: Thiago; Douglas, Gustavo, Santiago e Paulo Rodrigues; Julio Cesar, Thiaguinho, Leandro Chaves e Tony; Max (André Luis) e Frontini
Técnico: Alfredo Sampaio

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O mundo ganha um gênio e o gênio ganha um sósia

Macaé, meados de 1999, primeira série do ensino fundamental. Nova escola, e aquele neguinho dentuço vai conquistando a simpatia das pessoas, vai se tornando conhecido e amigo de muitos em sua redoma de alegria. Tudo corria bem, mas um outro dentuço, cerca de 10 anos mais velho, mudaria sua vida, sem a menor intenção.

"Olha o que ele fez, olha que ele fez, olha o que ele fez!" berrava Galvão Bueno quando Ronaldinho, somado à alcunha de Gaúcho, com 3 minutos em campo, dava um lindo lençol no beque venezuelano, estufava as redes do goleiro e corria para dar seu soco no ar, explodindo de felicidade. Pronto, a vida do tal menino macaense mudaria para sempre.

Dia seguinte, e a rotina chegou a ser engraçada: "Felippe, vi você na tv ontem!", "Felippe, vi você na tv ontem!"; ao chegar para o treino de basquete: "Ronaldinho, o que você tá fazendo numa quadra de basquete?". Pronto, o mundo ganhava um gênio e o gênio ganhava um sósia.
Igualmente ávido por bola nos pés, Felippe seguia sua rotina diária de comparações, risadas, aulas e peladas nos recreios da vida. E sempre que Ronaldinho aparecia, lá vinham mais conhecidos a comparar. Com certa razão... razão que se perdia quando o que se comparava era a técnica entre ambos. Uma covardia, uma vez que o Gaúcho teve muito mais sorte na vida.

Os anos se passavam e naquela crescente redoma do menino, ele ficava cada vez mais conhecido, por sua simpatia e cada vez mais inesquecível, por sua semelhança física com o famoso jogador. Mesmo quando transferiu-se e acabou escondendo-se na França(e curtiu muito, imagina-se, as noites na Cidade-Luz), no coração dos brasileiros, a magia futebolística de Ronaldinho Gaúcho não se apagara.

Após um certo tempo longe das câmeras, Ronaldinho re-aparece com cabelo a altura dos ombros. Um susto, a princípio, mas uma idéia que seria imaginada provavelmente pela mãe do macaense, e aceita com tempo pelo menino. Ok, vamos lá! Sem cabeleireiras ou produtos franceses, sem dinheiro, sem convicção e sem noção, aquele pequeno black-power se destaca naturalmente na multidão, até ter volume para cair, e com o ganho de altura e de convicação, se tornar proporcional.

A semelhança com Ronaldinho fez de Felippe alguém facilmente identificável, mas o colocou em situações minimamente estranhas. Como quando, após muitos anos insistindo com os pais, finalmente, aos 13, conseguira entrar para uma escolhinha de futebol. Com poucos meses de treino e nenhuma malícia, fazia parte da equipe que disputaria um "quase-campeonato" em Rio Bonito. Destro, sem malícia e novo no grupo, reza a lenda que sua escolha para ser o lateral esquerdo da equipe pelo técnico fora, em muito, por sua esperançosa semelhança com o craque do Paris Saint-Germain.

Em 2002, pentacampeonato na Coreia do Sul-Japão. A justamente subestimada equipe de Scolari chega com Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos e um Ronaldinho que quase marcaria do meio-de-campo, no início do primeiro jogo, contra a Turquia. Apesar disso, Ronaldinho seria um excelente coadjuvante ao brilho da dupla de ataque, mas ganharia destaque eterno no jogo contra a Inglaterra, pelas quartas-de-final, quando marcou um gol antológico, deu uma assistência monumental e foi expulso. O nome do jogo.

Do outro lado do mundo, quantas vezes Felippe não teve de ouvir: "pô, foi expulso ontem", "deu mole!"... e o menino apenas ria, nunca se incomodou om a comparação com seu ídolo. Sim, se títulos geram ídolos, uma Copa confirma o lugar no Olímpo para aqueles que lá venceram. Imagina-se que naquele momento, que seria seguido de uma transferência para o mítico Barcelona, Ronaldinho conquistara muitas crianças, muitos meninos, meninos como Felippe, que admiravam e muito sua magia.

A essa altura, muitos dos conhecidos de Felippe não sabiam o nome do macaense. Comentava-se o nome, e a expressão de interrogação aparecia, dizia-se Ronaldinho e lá vinha a compreensão de todos. Inclusive um dos melhores amigos do sujeito, não o identificava pelo nome de batismo.

Anos de intenso brilho em Barcelona e de ligieiras mudanças estéticas em Macaé, afinal, os anos passam e as pessoas crescem. Mas a admiração das pessoas pelo craque não muda, e o novo batismo já havia sido consumado.

Diz um tio de Felippe que Ronaldinho "conheceu o outro lado", referindo-se as baladas corriqueiras nas carreiras de jogadores de futebol, e que isso pode ter provocado tamanho declínio a partir de 2007, provocando inclusive uma transferência para o Milan e ausência na lista de jogadores convocados para a Copa da África do Sul. Obviamente, perguntava-se sempre a Felippe o que tava acontecendo com ele, se ele tava bem na Europa, se precisava de algo. É, pois é.

Incrível, como os esmasmos de gênialidade que Ronaldo de Assis Moreira dava, impediam qualquer um de diminuir a hipnose quando ele estava em campo.

Até que Ronaldinho quis voltar a jogar no Brasil. Pronto, o circo estava armado. A tranferência mais polêmica da história do futebol brasileiro, incluíndo um leilão promovido por seu irmão-empresário-cobra Roberto, entre Palmeiras, que teve aval de Assis para dar a tranferência como certa; Grêmio, que chegou a organizar festa com caixas de som no estádio Olímpico para receber de volta seu filho; e Flamengo, que ficaria com o astro a partir da temporada 2011. E toda a torcida anti-flamenguista de nada adiantou. ídolo vestiria sim a imunda camisa, aos olhos do alvinegro-estelar macaense Felippe. Já com quase 20 anos, ele entende, mas sente a estranheza de ver seu ídolo-espelho mudar-se para o lado do mal. Ouviu e ouvirá muito ainda, sempre rindo a toa. Mas como o próprio Felippe disse: "Azar do HOMI, que terá(...) milhões de inimigos naturais. Não que a idolatria tenha mudado(...) Então explodam todos juntos. Nunca será tarde, Ronaldinho. Os homens de boa vontade o esperam a qualquer momento na terra de paz.
Amém.